Opinião: Tuiuti e a crítica a um Brasil sempre escravocrata

O “vampiro neoliberalista”. Reprodução: Buzzfeed News.

Desde que soube, há cerca de um mês atrás, que uma escola levaria a escravidão, a reforma da CLT e as críticas às políticas neoliberais do governo à avenida, soube que aquele seria o grande ponto dos desfiles das escolas. E parece que não só para mim, pela repercussão que mensurei mais cedo pelas redes sociais.

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Primeiro, o desfile da Paraíso de Tuiuti foi o segundo assunto mais comentado do Twitter, em todo o mundo. Depois, vários analistas classificam o desfile como histórico. Jornalistas respeitados teceram elogios à arte trazida pela escola do bairro carioca de São Cristóvão.

O samba-enredo “Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão?”, com dois refrões, tornou o acompanhamento facilitado pelos carnavalescos da escola e também pelo público presente, como mostrou a TV em algum momento. Além disto, não sei se foi essa a mensagem que quis passar o autor, mas essa exclamação no início do nome lembra o sofrimento de Cristo na cruz e seu grito de abandono: “Eli, Eli, lama sabctani” (“Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?”).



A Paraíso de Tuiuti trouxe um resgate histórico do tema, desde os povos antigos até chegar às eras atuais. A emoção já tomou conta no abre-alas, quando a escola apresentou uma senzala, com as figuras dos escravos maltratados e o papel dos “pretos velhos” na cura das feridas.

Em seguida, veio o passeio pela escravidão nos povos antigos. As caravelas trouxeram os escravos ao Novo Mundo. Mas o melhor de tudo ficou para o fim, o momento em que a escola responde a provocação feita pelo título do enredo.

As alas finais mostram que a escravidão é latente ainda hoje: o trabalho escravo nas áreas rurais, negros e brancos “engaiolados”, carteiras de trabalho destruídas: tudo isto depois de uma ala de “manifestoches”, guiados por mãos invisíveis e com patos amarelos terem ajudado na “construção” desse cenário. O último carro alegórico trazia um “vampiro” com faixa presidencial conduzindo os desmontes de direito e a nova escravidão.



É quando a arte e a vida se encontram: diversas vezes, enquanto assistia, arrepiei-me. É a tristeza de ver que o nosso país está sendo desmontado por um governo sem votos, sem povo, mas que conta com a “bênção” do “deus-mercado” para todas as atrocidades. Foram representantes desse mesmo “mercado” que outro dia aplaudiram Bolsonaro após este apresentar a solução para a Rocinha, do Rio de Janeiro, filha, como todas as favelas, dos destroços da escravidão na nossa história: metralhar tudo.

O desfile entrou para a história.

Veja abaixo o vídeo do desfile: